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Estado apoia produtores do Litoral na busca do registro de origem

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Produtos tradicionais do Litoral do Paraná, cachaça, barreado, balas de banana e farinha de mandioca já são reconhecidos nacional e internacionalmente pela sua qualidade, mas ainda falta um tempero nessa história: a certificação de Indicação Geográfica.

Os produtores buscam a chancela do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), vinculado do Ministério da Economia, porque o selo agrega valor, amplia a visibilidade e abre mercado para os empresários expandirem seus negócios. A Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, Emater e a Agência de Defesa Agropecuária (Adapar) dão apoio e assistência técnica para que os produtores se organizem para conseguir o reconhecimento.

“É um certificado importante não só para ampliar o comércio dos produtos, mas também um estímulo ao reconhecimento regional”, destaca o secretário da Agricultura e Abastecimento, Norberto Ortigara. Ele ressalta que a iniciativa atende aos compromissos do governador Carlos Massa Ratinho Junior de fomentar cadeias produtivas e o turismo.

PLATAFORMA – Para a roda comercial ficar completa, os produtores litorâneos apostam no recém-criado Fórum de Indicações Geográficas e Marcas Coletivas do Paraná (Origens Paraná), plataforma que integra empresários e o Sebrae-PR e luta pelo alvorecer dos produtos tradicionais.

O Paraná é o terceiro Estado que mais possui produtos com esse selo (seis), atrás apenas de Minas Gerais e Rio Grande do Sul (oito). Já receberam o aval federal o café do Norte Pioneiro, a erva-mate de São Mateus do Sul, o mel de Ortigueira e do Oeste do Paraná, a goiaba de Carlópolis, a uva fina de mesa de Marialva e os queijos da Colônia Witmarsum, em Palmeira.

CACHAÇA – A cachaça, por exemplo, tem registros de produção no Litoral paranaense desde 1733, época do Brasil Imperial, quando Dom Pedro II permitiu a instalação de um engenho em Morretes. No século 19, com a imigração italiana, mais de 50 produtores caseiros passaram a tirar da cana-de-açúcar a sua essência simbólica, rito que perdura até os dias de hoje. Não à toa alguns dicionários brasileiros indicam o verbete morretiana como sinônimo do tradicional produto do Paraná.

Morretes lidera a produção de cachaça do Litoral e contribui com 30% de todo mercado estadual. A cidade de 15 mil habitantes conta atualmente com quatro produtores com todos os registros oficiais do Ministério da Agricultura e produz cerca de 10 mil litros por mês.

O processo de obtenção dos registros para as cachaças de Morretes começou a tramitar em esfera federal em 2015 e há expectativa de definição ainda neste ano. O produtor local de cachaça Sadi Poletto explica que o selo assegura segurança ao consumidor final. “Nós não aprendemos a contar e valorizar a nossa história. Morretes é o berço da cachaça, onde ela nasceu. Plantamos uma variedade única e centenária de cana chamada Baianinha. A Indicação Geográfica pode aumentar essa exposição no mercado nacional”, destaca.

No mercado internacional o reconhecimento já é uma realidade. Há poucos anos a versão premium envelhecida em barril de carvalho de um rótulo morretiano foi eleita a melhor cachaça do Brasil. Três rótulos também já foram premiados com medalhas no Concurso Mundial de Bruxelas.

BALA DE BANANA – As balas de banana de Antonina também pleiteiam o reconhecimento do processo iniciado em 1979 e aprimorado na década de 80. As duas principais empresas da cidade produzem cerca de 16 toneladas por ano para o mercado local.

Segundo Maristela Mendes, dona de uma das fábricas, o intuito, além do retorno financeiro, é a consequência positiva que a indicação pode gerar para toda a região, em especial para os setores do turismo. “Há diversos exemplos de lugares que ficaram conhecidos após a Indicação Geográfica, como Caxias do Sul (RS), Gramado (RS), Canela (RS), Franca (SP).

“O reconhecimento da bala de banana e do Litoral do Paraná pode aumentar todo um circuito”, explica. “Também quer dizer que é um produto 100% natural, certificado e típico dessa região do país”. As empresas das balas são reconhecidas por estimular a visitação ao Litoral, apesar de terem conquistado espaço em lojas comerciais de Curitiba e região metropolitana.

BARREADO – Indicação um pouco diferente pode ter o barreado, tradicional prato de carne bovina desfiada do Litoral. O pedido de registro não leva em consideração apenas a receita, mas todo o serviço gastronômico, das tradições que datam mais de 200 anos ao empratamento. O pedido escapa dos buffets que oferecem o produto, por exemplo, para focar nos restaurantes que preservam a culinária açoriana.

“Foram reunidos diversos produtores para indicar o jeito tradicional, desde a escolha da carne, dos temperos, forma de preparo, tempo de cozimento, das panelas de barro, da farinha de mandioca correta. O reconhecimento de Indicação Geográfica virá para essa prática secular”, aponta Maurício Laffite, produtor local e proprietário de um restaurante. Segundo seus cálculos, Morretes, Antonina e Paranaguá têm oito estabelecimentos capazes de servir o produto nesses moldes.

Além da seleção das carnes e da herança tropeira e fandanga, a panela de barro é um elemento muito tradicional do prato, sendo apontado como o melhor recipiente para preservar o gosto dos alimentos. O serviço também tem as suas especificidades, que fazem parte de seu folclore, e são típicos dos restaurantes do Litoral paranaense.

FARINHA – A farinha é um produto artesanal do Litoral, da agricultura familiar, com forte tempero cultural. A identidade é atribuída ao processo de produção, que não remove o amido. Alia-se a isso o fato da matéria-prima utilizada ser produzida sem adição de insumos químicos, em decorrência do grande número de unidades de conservação ambiental existentes na região. Ela também é mais grossa, tem gosto peculiar e é usada nos barreados da região.

O secretário da Agricultura e Abastecimento destaca que o Governo do Estado oferece suporte para qualificar os produtores do Litoral que se dedicam ao cultivo e processamento da mandioca. “Temos o máximo interesse na melhoria dos processos”, afirma Norberto Ortigara.

INDICAÇÃO GEOGRÁFICA – A Indicação Geográfica do INPI é dividida em dois subgrupos: indicação de procedência, quando uma região é reconhecida como centro de produção, fabricação ou extração de determinado produto, levando em conta um modus tradicional; e a denominação de origem, relacionado a um produto proveniente de um meio geográfico específico que exerce influência sobre as características da produção.

No Paraná, o processo de registro dos produtos iniciou com o Sebrae-PR, que fez um diagnóstico em 2013 para identificar potenciais produtos que pudessem ser reconhecidos por sua origem, e passou a orientar as indicações de 12 deles.

A consultora do Sebrae-PR Maria Isabel Guimarães explica que produtos locais com tradição, história e cultura podem pleitear o registro de Indicação Geográfica. Há inclusive um estímulo do governo federal de fomentar os registros no país, que ainda não passam de 51. “Levamos em consideração a notoriedade. Existe uma história nesses produtos. Tem algo que os difere. São pessoas, histórias por trás de tudo”, afirma.

De acordo com o Origens Paraná, além do ganho representativo, os produtos indicados também geram valor agregado e custam em média 30% a mais do que os comuns. “Para se ter uma ideia, segundo as nossas projeções, o meu produto com indicação geográfica teve 100% de valorização nos mercados de fora da região. O quilo do produto é vendido com 100% de valorização”, explica Helinton Lugarini, presidente da Associação dos Amigos da Erva-Mate de São Mateus do Sul e do Origens Paraná.

O empresário destaca a origem comprovada, capacidade de rastreabilidade e boas práticas agrícolas ou de produção como as principais razões para o valor agregado.

Segundo o Instituto Emater, pertencente à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, a Indicação Geográfica concluiu uma cadeia de criação, produção e distribuição. “A certificação mostra ao consumidor que aquele produto foi feito com todos os requisitos técnicos necessários, com padrões de produção rígidos e que o produtor se dedicou a seguir protocolos técnicos definidos. Isso garante a qualidade e a segurança alimentar do produto”, resume o diretor-presidente do instituto, Natalino Avance de Souza.

Fonte: AEN